:: Uso de drogas: a alter-ação como evento (Vargas 2006)

VARGAS, Eduardo V. 2006. Uso de drogas: a alter-ação como evento. Revista de Antropologia 49(2):581-623.

A primeira seção do texto – Consenso moral e práticas recalcitrantes – abre com uma constatação: as políticas oficiais anti-drogas partem de (1) uma distinção arbitrária entre as drogas ilícitas (chamadas de “drogas”) e as drogas lícitas (chamadas de “fármacos” ou mesmo de “alimentos”) e de (2) um “consenso moral” segundo o qual “drogas causam dependência, fazem mal, quando não matam pura e simplesmente; usá-las, portanto, é um absurdo; logo, ‘diga não às drogas’.” (Vargas 2006:582)

Vargas então faz uma apresentação geral do desenvolvimento do texto, deixando claro que “recusar o consenso moral não significa fazer apologia às drogas, mas alimentar a controvérsia em busca de alternativas conseqüentes que levem em conta a afirmação eticamente sustentada da pluralidade imanente dos modos de existência”. Vale citar a expressão da proposta do texto, assim como de sua hipótese:

Proponho que, em vez de indagar o porquê ou qual o significado do uso de drogas, cabe perguntar o que ocorre ou que experiência os usuários atualizam mediante o consumo, questões que exigem outro modo de problematização do uso de drogas. Minha hipótese de trabalho é que o que ocorre são eventos (refiro-me àquilo que os usuários costumam chamar de ‘barato’, ‘viagem’ ou ‘onda’ das drogas) e que esses eventos implicam experimentações intensivas e autoabandono, ou o paradoxo de ações que deliberadamente visam ‘sair de si’. (Vargas 2006:583)

A segunda seção do texto – Para perguntas equívocas, só o erro é resposta – é uma espécie de contra-argumentação a esse “consenso moral”, baseada não na crítica, mas sim na reconfiguração da questão para a qual ele é a resposta dominante. Em síntese, a pergunta normalmente colocada ao uso de drogas é: se drogas fazem mal, por que as pessoas insistem em usá-las? Para este tipo de “pergunta equívoca”, muitos “erros” surgem como “resposta”:

o porquê ou o significado do uso de drogas são regularmente imputados a uma falta ou fraqueza, física e/ou moral, psíquica e/ou cultural, política e/ou social. Dito de um modo mais prosaico, habituamo-nos a pensar que o consumo de drogas seria uma resposta a uma crise ou a uma carência qualquer: consomem-se drogas porque faltam saúde, afeto, cultura, religião, escola, informação, dinheiro, família, trabalho, razão, consciência, liberdade etc. (Vargas 2006:58)

as questões do “por que” ou do “significado” dos usos não medicamentosos de drogas não são as únicas que podem ser postas, nem, creio, as mais relevantes[…] [. E]las não são as mesmas colocadas pelos próprios usuários que, habitualmente, se mostram pouco interessados em saber por que usam drogas ou qual o significado dessas práticas, salvo quando os analistas ou outras autoridades os indagam. [E]las condicionam de antemão o gênero de respostas que nos habituamos a considerar, já que, […] às perguntas suscitadas pela consideração das práticas de uso de drogas como disparatadas, as respostas aventadas (que procedem, via de regra, por redução de absurdo) só são capazes de apresentar soluções se concluem pelo erro, pela falta, pela fraqueza ou por algum outro de seus vizinhos semânticos. (Vargas 2006:587-8)

Num assim chamado “recenseamento […] sumário”, Vargas indica como isso ocorre em documentos da ONU, na neurobiologia, e entre profissionais das psi, sociólogos, cientistas sociais, e teóricos marxistas e mertonianos, citando Ross e Gilman, Chast, Masur e Carlini, Olievenstein, Freud, Le Breton, Becker, Caballero e Zaluar.

Na terceira seção do texto – Outras questões, outro modo de problematização -, Vargas cita Caiafa, Guattari, Gomart e Hennion, Dagognet e Pignarre, Tarde, Latour e Garfinkel para deslocar a questão que traz consigo o referido “consenso moral”. De especial interesse é a maneira como ele vincula sua proposta à concepção tardeana de “lógica social”:

[C]onsidero bem mais proveitoso tratar do assunto em termos de lógica social, desde que isso seja feito conforme a acepção emprestada a essa expressão por Gabriel Tarde, que a concebe como “a arte de mudar de pensamentos conservando sempre, sem aumento nem diminuição, a distância que nos separa do verdadeiro ou do falso” (Tarde, 1895b, p. 119). Assim considerada, a lógica social não diz respeito à busca ou à revelação da verdade, mas à direção dos agenciamentos (ou das ondas de crenças e de desejos, dizia Tarde) que animam o campo social. (Vargas 2006:589)

Ainda nesta seção, Vargas dedica uma importante nota de rodapé (nota 15) à sua concepção de “dispositivo das drogas“.

A quarta seção do texto – O evento ‘onda’ e a fórmula do êxtase -, Vargas deixa claro quais são as questões que efetivamente interessam aos usuários de drogas:

‘Bateu?’, ‘rolou?’, ‘fez?’ são questões que os usuários se colocam e que visam à ocorrência de acontecimentos singulares: o ‘barato’, a ‘viagem’, a ‘onda’ da droga. Mas o que é o ‘barato’, a ‘onda’, a ‘viagem’? É difícil dizer, é difícil expressar, é difícil representar, pois são eventos que ‘rolam’, que se desenrolam com a experiência, que acontecem mediante experimentação. Assim, quando solicitados a falar a respeito, os usuários costumam narrar experiências vividas em que ‘rolou’ o ‘barato’, a ‘viagem’, a ‘onda’: foi em tal lugar, em tal período do dia, estava com tais ‘chegados’, aí ‘pintou’ uma ‘presença’ e a droga foi consumida, aí eu fiquei (ou tudo ficou) ‘alterado’. É difícil extrair mais do que isso, pois não há mais o que dizer além do que passa, do que se passa. (Vargas 2006:591)

Evocando Latour, Whitehead e Gomart e Hennion, Vargas define “evento” como um “acontecimento” que “prolonga ações iniciadas em outros lugares, [e] ao mesmo tempo […] as transforma de modo surpreendente” (p. 592). Acompanhar um evento (como, por exemplo, um pesquisador deveria fazer) é “seguir os movimentos que nos fazem fazer algo que nos surpreende” (p.591). Citando um informante, Vargas evidencia que a “surpresa” implicada no evento é de ordem intensiva, “já que ‘a vida só vale a pena se for vivida intensamente’, como se ouve entre usuários” (p.592).

Por fim, Vargas chama a atenção para o seguinte paradoxo: “essas alterações intensivas que implicam abandono ou dissolução do eu são auto-engendradas, são voluntariamente visadas, são minuciosamente preparadas” (p.593). A “dissolução do eu” é, neste caso, um ato deliberado do “eu”.

Dessa perspectiva é possível sintetizar nos seguintes termos o paradoxo do êxtase ou do evento ‘onda’ das drogas, quando este chega a ser produzido enquanto tal: fazer de tudo (ou quase…) para que aconteça algo que nos escapa desde o início… (Vargas 2006:593)

A quinta seção do texto – Drogas e medicamentos – trata basicamente das complexidades envolvidas em qualquer tentativa de distinção entre “drogas” e “medicamentos”. Vargas evoca Akrich e Pignarre para demonstrar como as práticas envolvidas na produção e no consumo de “medicamentos” são da mesma natureza daquelas elvolvidas na produção e no consumo de “drogas”. Vargas indica ainda algumas distinções relevantes (entre amigos no caso das drogas ilícitas, entre familiares no caso das drogas lícitas e entre médicos e pacientes no caso dos remédios) entre os diferentes usos (medicamentosos ou não) das drogas. A seção se encerra com um “ponto capital”, apresentado a partir de Deleuze e Guattari: “sucede às drogas e aos medicamentos o mesmo que às armas e às ferramentas” (p.597).

“Ferramentas de trabalho e armas de guerra trocam suas determinações”, como drogas e medicamentos também o fazem. “Isso não impede que se possam reconhecer diferenças interiores, embora não intrínsecas (lógicas ou conceituais), ainda que por aproximação”, entre todas essas coisas, mas o ponto a ser destacado é que, tal como não é a ferramenta que define o trabalho, mas sim o inverso, não é a droga que define o crime, nem é o remédio que define a medicina: a droga supõe o crime, como o remédio supõe a medicina, e a ferramenta supõe o trabalho”. De um lado, isso significa que, como as armas e as ferramentas, as drogas e os medicamentos estão “submetidos às mesmas leis que definem precisamente a esfera comum”; de outro, isso significa também que qualquer objeto técnico (arma, ferramenta, droga, remédio ou alimento) “continua abstrato, inteiramente indeterminado, enquanto não for reportado a um agenciamento” que o constitua enquanto tal (ibid.).(Vargas 2006:597)

A sexta seção do texto – A ‘onda’ das drogas e o paradoxo da paixão

[to be continued…]

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Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal de São Carlos (PPGAS/UFSCar).
Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Carlos (DCSo/UFSCar).

Bibliografia:

ANTUNES, Arnaldo. 2006. Como é que chama o nome disso: Antologia. São Paulo: Publifolha.

DELEUZE, Gilles. 1996. O atual e o virtual. In: Éric Alliez. Deleuze Filosofia Virtual. (trad. Heloísa B.S. Rocha) São Paulo: Ed.34, pp.47-57.

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MAUSS, Marcel. 2003. Sociologia e Antropologia. (trad. Paulo Neves) São Paulo: Cosac & Naify. [1950] [Versão eletrônica em francês]

SCHRÖDINGER, Erwin. 1993. What is life? The physical aspect of the living cell, with Mind and matter & Autobiographical sketches. Cambridge: Cambridge University Press. [1944]

VARGAS, Eduardo V. 2006. Uso de drogas: a alter-ação como evento. Revista de Antropologia 49(2):581-623.

WHITEHEAD, Alfred N. 1971. The concept of Nature. Cambridge: Cambridge University Press. [1919]

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